Arquivo do dia: Abril 24, 2011

DO DESÂNIMO PARA A INDIGNACÃO QUE GERA AÇÃO!

Isabelle Ludovico

Vivemos permanentemente debaixo de uma avalanche de informações desanimadoras. As notícias diárias provenientes dos jornais e da televisão apontam preferencialmente escândalos e arbitrariedades. Porém, estas denúncias em geral “acabam em pizza” e confirmam nossa suspeita da impunidade que reina neste país. Assim, nos sentimos impotentes diante de tanta injustiça. Quando a indignação supera o nível suportável de tolerância, sentimos o ímpeto de cobrar alguma providência. Mas logo alguém pondera que não surtirá efeito e acrescenta que ainda corremos o risco de passar de acusador a acusado, como tem acontecido com tantas denuncias de abuso sexual onde a vítima é transformada em sedutora conivente.

              O medo de ser perseguido é um dos resquícios da ditadura militar. O abuso do poder por parte de sujeitos fardados continua muitas vezes acobertado pelo corporativismo e o cidadão comum se sente desprotegido diante da morosidade da justiça. Reclamar, exigir o respeito de seus direitos, não faz parte da índole brasileira. Para viver em boa paz e não ter inimigos, o brasileiro se dispõe a agüentar calado as injustiças praticadas debaixo do seu nariz. Ele não percebe que assim ele se torna cúmplice e co-responsável.

              Existe um tipo de informação que, pelo seu cinismo, acaba gerando alienação e apatia. Doses diárias de violência verbal e visual propiciam uma insensibilização sutil. Programas de televisão sensacionalistas podem até suscitar um prazer sádico e alimentar o lado mais sombrio da personalidade humana. Este voyeurismo perverso macula a dignidade do ser humano. Precisamos reagir contra esta banalização da violência e esta assimilação quotidiana da injustiça que nos envenena. A informação deve ser avaliada com um espírito crítico e deve levar a uma ação responsável em prol do bem comum. Exercer seus direitos e deveres de cidadão não é um luxo opcional para as horas vagas: é uma obrigação de cada indivíduo. A omissão de hoje poderá se reverter em tragédia amanhã.

              Que sociedade estamos construindo para os nossos filhos? O exercício da cidadania começa dentro de casa, exige coerência, compromisso com o próximo e solidariedade. Uma informação mal digerida provoca náusea, mas gera apenas desânimo. Uma informação passada pelo crivo da crítica pode produzir uma mudança importante: mudança de consciência em primeiro lugar, mudança de perspectiva e mudança de comportamento. Esta informação bem aproveitada pode ser a semente de uma transformação benéfica do indivíduo e posteriormente da sociedade.

              É de vital importância que nosso individualismo exacerbado se transforme em solidariedade. O modelo neoliberal amplifica o processo de exclusão da maioria em benefício de uma minoria insaciável. Os efeitos nocivos só poderão ser corrigidos se conseguirmos sair desta nossa omissão social para nos tornarmos protagonistas de mudanças. Este desejo nos colocará em contato com outras pessoas movidas pela mesma intenção. Se o desânimo é contagioso, o entusiasmo também. Cabe a nós escolher qual destas duas emoções vai reger a nossa vida.

              Ser sal e luz no mundo significa exercitar o Amor, a Esperança e a Fé fundamentados em Cristo. Ser cidadão do Reino de Deus significa promover estes valores a partir do testemunho da nossa própria vida. Em vez de nos deixar paralisar por informações sensacionalistas, vamos selecionar nossas fontes de informação e ser porta-vozes de boas notícias que nos levem a apoiar iniciativas construtivas. Os meios de comunicação são sensíveis à nossa opinião. Elogiando assuntos interessantes e criticando informações distorcidas e programas medíocres, contribuiremos para um direcionamento mais edificante. Como cristãos, devemos nos posicionar diante de assuntos como justiça social, aborto, homossexualismo, política, abuso sexual, corrupção… Porém nossa intervenção será ainda mais eficiente se nossas palavras forem apoiadas em ações concretas que contribuem para reverter o mal e promover a dignidade e a justiça social.

 

ISABELLE LUDOVICO DA SILVA – Psicóloga clínica, com especialização em Terapia Familiar Sistêmica, isabelle@ludovicosilva.com.br